O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou nesta sexta-feira (18 de setembro de 2026) que não concorda com a ideia de tratar as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A posição contraria o entendimento defendido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que da rótulo de terrorista a facções e grupos como o CV e o PCC.
A declaração foi feita durante um evento voltado para discussões sobre segurança pública, realizado no Rio de Janeiro. Segundo Lula, o conceito de terrorismo deveria estar associado a disputas pelo poder político, e não à atuação de organizações criminosas que controlam territórios e atividades ilegais.
Lula usa Bolsonaro e atos de 8 de janeiro como exemplo
Para justificar seu ponto de vista, o presidente recorreu a um exemplo concreto: o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pela tentativa de golpe de Estado. Lula lembrou que o plano golpista teria incluído atentados contra sua própria vida, contra o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Na avaliação do petista, esse tipo de ação é que deveria ser chamado de terrorismo — no caso, “terrorismo de Estado”, já que envolveria uma tentativa de ruptura institucional e disputa direta pelo controle do poder no país.
Facções causam medo, mas têm natureza diferente, diz presidente
Apesar de rejeitar o termo “terrorista” para as organizações criminosas, Lula reconheceu que o impacto causado por essas facções na vida da população é semelhante ao que se espera de ações terroristas. Segundo ele, para famílias que vivem em bairros dominados pelo crime, os bandidos representam exatamente esse tipo de ameaça constante.
O presidente mencionou moradores de comunidades controladas por criminosos, estudantes e pessoas que sofrem cobranças ilegais impostas por essas organizações. Para essas pessoas, disse Lula, o medo do dia a dia se equipara ao terror vivido em situações de violência extrema.
Ainda assim, ele fez uma distinção conceitual importante. Segundo o presidente, o terrorismo estaria ligado à tentativa de tomar o poder político, enquanto o crime organizado atua de forma diferente: controlando territórios, impondo regras próprias e explorando atividades econômicas ilegais dentro dessas áreas.
Governo apresenta plano de combate ao crime organizado
Durante o evento no Rio de Janeiro, Lula afirmou que o governo federal precisa avançar na disputa contra o crime organizado e falou sobre a necessidade de retomar territórios que hoje estão sob domínio de facções criminosas.
A ação apresentada pelo governo reúne forças de segurança em diferentes níveis: polícias estaduais, federais e a estrutura administrativa municipal. Lula chamou a iniciativa de “plano piloto” e explicou que, se o modelo funcionar no Rio de Janeiro, poderá ser expandido para outras regiões do país.
Três prioridades definidas pelo presidente
Lula estabeleceu três frentes principais de atuação para o combate às organizações criminosas. A primeira é sufocar a logística e a mobilidade dessas facções, dificultando o transporte de armas, drogas e recursos financeiros usados pelo crime organizado.
A segunda prioridade é a retomada de territórios atualmente controlados por grupos criminosos, devolvendo essas áreas ao controle do Estado. Já a terceira meta é fortalecer a capacidade dos municípios para agir de forma mais eficiente no combate às facções, ampliando recursos e articulação entre diferentes esferas de governo.
PEC da Segurança Pública volta a ser defendida
Outro ponto reforçado por Lula durante o evento foi a importância da aprovação da PEC da Segurança Pública, proposta que tramita no Congresso Nacional. Segundo o presidente, o texto tem como objetivo definir claramente as responsabilidades da União, dos Estados e dos municípios na área de segurança.
Lula argumentou que essa divisão de tarefas é essencial para permitir uma atuação mais integrada entre as diferentes forças policiais do país, evitando sobreposição de funções e aumentando a eficiência no combate ao crime organizado.
Contexto da discussão sobre terrorismo e facções
A fala de Lula ocorre em um momento de debate sobre a forma como o governo brasileiro deve responder a pressões internacionais relacionadas à classificação de organizações como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Setores do governo já haviam manifestado preocupação de que rotular essas facções como grupos terroristas poderia servir de pretexto para justificar algum tipo de intervenção externa no país.
Essa discussão ganhou força após relatórios e declarações de autoridades americanas sobre o tema, o que tem levado o Planalto a avaliar com cautela os desdobramentos políticos e diplomáticos dessa classificação.
Conclusão
Ao rejeitar publicamente a comparação feita por Trump, Lula reforça uma posição que já vinha sendo discutida internamente pelo governo brasileiro: a de que classificar facções como terroristas pode abrir caminho para interpretações perigosas, inclusive do ponto de vista da soberania nacional. Ao mesmo tempo, o presidente buscou demonstrar compromisso com o combate ao crime organizado, apresentando um plano de ação voltado para a retomada de territórios e o fortalecimento da segurança pública no Rio de Janeiro, com possibilidade de expansão para outras regiões do Brasil.

