Um estudo conduzido por pesquisadores da Coppead, ligada à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas), trouxe novos dados sobre os efeitos do programa Desenrola Brasil na vida financeira dos brasileiros. A pesquisa, baseada em informações do Banco Central, revelou que o programa conseguiu diminuir a inadimplência entre seus beneficiários, mas esse benefício não se manteve por muito tempo. Impacto do Desenrola sobre dívidas foi temporário, Passados cerca de 18 meses do início das renegociações, os índices de dívidas em atraso voltaram a se aproximar dos patamares registrados antes da iniciativa.
O que é o Desenrola Brasil e como funciona
Lançado em 2023, o Desenrola Brasil foi criado com o objetivo de ajudar pessoas endividadas a renegociarem suas dívidas em condições mais favoráveis. O foco inicial do programa, avaliado nesta pesquisa, foi direcionado a devedores de baixa renda, especificamente aqueles com ganhos de até dois salários mínimos. A proposta era oferecer um caminho para que esse grupo conseguisse regularizar suas pendências financeiras e voltar a ter acesso ao crédito.
Para entender de fato qual foi o impacto real da iniciativa, os pesquisadores utilizaram uma metodologia comparativa. Eles analisaram o comportamento financeiro dos beneficiários do programa e compararam com um grupo de pessoas com características parecidas, mas que recebiam entre dois e três salários mínimos, faixa que ficou de fora do benefício. Essa comparação permitiu isolar o efeito específico do Desenrola sobre a inadimplência.
Resultados positivos no curto prazo
Os dados mostram que, nos primeiros meses após a adesão ao programa, houve uma queda expressiva nos índices de inadimplência. As dívidas com mais de 15 dias de atraso caíram cerca de 14% entre os participantes do Desenrola. Já os débitos mais antigos, com mais de 90 dias sem pagamento, tiveram uma redução ainda maior, de aproximadamente 17%.
Um detalhe interessante apontado pelo estudo é que o impacto do programa não foi uniforme entre os diferentes tipos de dívida. As pendências relacionadas a cartão de crédito foram as que apresentaram a melhora mais significativa. Nos casos de atrasos de até 15 dias, por exemplo, o efeito positivo chegou a ser duas vezes maior do que o observado em empréstimos pessoais, evidenciando que o programa teve resultados mais expressivos nesse tipo específico de dívida.
O alívio perde força com o tempo
Apesar dos resultados animadores no início, a pesquisa identificou que esse efeito positivo não se sustentou ao longo do tempo. Cerca de um ano e meio depois do começo das renegociações, os pesquisadores notaram que os índices de inadimplência dos beneficiários começaram a se aproximar novamente dos níveis registrados antes de eles entrarem no programa.
Esse dado é importante porque mostra que o Desenrola pode ter funcionado mais como uma solução imediata do que como uma mudança duradoura na vida financeira das pessoas atendidas. Ou seja, o programa ajudou a aliviar o peso das dívidas em um primeiro momento, mas não necessariamente resolveu as causas que levaram essas pessoas a ficarem endividadas.
Diferenças entre trabalhadores formais e informais
Outro ponto relevante da pesquisa diz respeito ao perfil dos beneficiários. Os resultados variaram bastante dependendo da situação profissional de cada participante. Entre trabalhadores com carteira assinada, ou seja, que possuem emprego formal, a redução da inadimplência foi mais consistente e duradoura.
Já entre trabalhadores informais e aposentados, o cenário foi diferente. Para esses grupos, o estudo não encontrou uma melhora que pudesse ser considerada estatisticamente relevante. Isso sugere que a renda mais instável, característica de quem trabalha informalmente, pode ter dificultado a manutenção dos benefícios conquistados com a renegociação das dívidas.
Metodologia utilizada na pesquisa
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram dados administrativos fornecidos pelo Banco Central, cobrindo o período de janeiro de 2023 a agosto de 2025. Esse recorte temporal permitiu acompanhar de perto tanto o momento inicial de adesão ao programa quanto os meses seguintes, possibilitando observar como a situação financeira dos beneficiários evoluiu ao longo do tempo.
A comparação entre grupos com perfis semelhantes, mas que estavam dentro e fora da faixa de renda contemplada pelo programa, foi fundamental para que os pesquisadores conseguissem isolar o efeito real do Desenrola, evitando que outros fatores econômicos interferissem na análise.
O que os pesquisadores concluíram
De acordo com o estudo, as evidências indicam que o Desenrola funcionou principalmente como um alívio temporário na liquidez das famílias endividadas. Isso significa que o programa ajudou as pessoas a terem um respiro financeiro momentâneo, mas não necessariamente contribuiu para uma mudança permanente na capacidade de pagamento ou na resiliência financeira dos beneficiários.
Essa conclusão é importante para o debate público sobre políticas de renegociação de dívidas no Brasil. Ela mostra que, embora iniciativas como o Desenrola possam trazer benefícios imediatos e significativos, principalmente para quem está com o nome sujo e enfrenta dificuldades para acessar crédito, pode ser necessário pensar em estratégias complementares para garantir que esse alívio se transforme em uma solução mais duradoura.
Considerações finais sobre o estudo
Os resultados da pesquisa da Coppead e da FGV trazem informações valiosas para entender melhor o alcance e os limites do Desenrola Brasil. Fica claro que o programa cumpriu um papel importante ao reduzir a inadimplência logo após as renegociações, especialmente entre trabalhadores formais e nas dívidas de cartão de crédito. No entanto, o fato de esse efeito perder força após 18 meses levanta questões sobre a necessidade de ações adicionais para que famílias de baixa renda consigam manter uma situação financeira mais estável a longo prazo.
Esse tipo de análise é essencial para que futuras políticas públicas voltadas ao combate ao endividamento possam ser aprimoradas, levando em conta não

